Especialistas falam se é verdade ou mito sobre suco de inhame combater a dengue

Coordenador do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital de Base de Rio Preto explica que o suco não ajuda no tratamento e fala sobre o perigo da mandioca crua.
08/06/2019 07:00 Saúde
Foto: Reprodução
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Com mais de 21 mil casos de dengue registrados em São José do Rio Preto (SP) nos primeiros seis meses deste ano, o suco de inhame passou a ser procurado por muitos moradores como forma de "combater" os sintomas da doença. Mas, afinal, ele realmente ajuda?

O assunto acabou sendo debatido após o morador José Aparecido da Silva, de 56 anos, morrer em abril deste ano com sintomas de intoxicação alimentar. A família informou ao médico da Santa Casa que a vítima tinha consumido suco de inhame cru minutos antes de ser socorrido.

Com isso, o G1 ouviu especialistas da área da saúde para esclarecer as verdades e os mitos dos benefícios do suco.

De acordo com o médico Carlos Caldeira, atual coordenador do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital de Base de Rio Preto, o suco de inhame não é um "remédio" capaz de aumentar rapidamente a imunidade ou "agir de forma mágica" nos sintomas da doença, que incluem febre, cansaço, dor de cabeça e no fundo dos olhos. (Veja vídeo acima)

"Os alimentos naturais que as pessoas encontram em sites e acham que existem benefícios como melhorar a quantidade de plaquetas, reduzir os sintomas da dengue, isso não existe. É uma lenda que alguém inventou e as pessoas compram a ideia e ficam replicando”, explica.

Sem o laudo necroscópico de José Aparecido da Silva, não é possível saber se a ingestão do alimento foi a causa da morte.

No entanto, Carlos Caldeira afirma que o inhame cru e cozido não tem propriedades tóxicas capazes de causar uma intoxicação alimentar e, consequentemente, a morte.

“O inhame não é tóxico. Com certeza, não deve ter sido a causa da morte do paciente. A mandioca crua é perigosa, porque possuí uma concentração alta de um veneno conhecido como ácido cianídrico. Ele é letal em pouco tempo. Mas quando você ferve a toxidade se perde”, afirma Carlos Caldeira.

Ao G1, o médico também explicou que não há motivos para se preocupar com o consumo do inhame, principalmente, porque ele possui nutrientes benéficos ao corpo humano. Contudo, o erro está no fato de usá-lo como um alimento milagroso no tratamento da dengue. Quando na verdade, não é bem por aí.

“Você pode tomar suco de inhame se gostar, mas não com o pensamento de que ele vá te trazer algum tipo de benefício milagroso. Existem diversos alimentos com as mesmas propriedades. Portanto, a pessoa pode consumir um tomate ou uma cenoura. Não vai fazer diferença”, diz o coordenador.

Ainda segundo Carlos Caldeira, muitos pacientes deixam de lado o que os médicos dizem para fazer e acabam recorrendo à internet como se ela fosse solucionar os problemas. O ato de se automedicar, mesmo com nutrientes naturais, pode gerar malefícios à saúde.

“Uma grande proporção dos pacientes gosta de fazer de tudo, menos aquilo que existe comprovado cientificamente. É enorme o número de pacientes que compra remédios pela internet, que dizem que existem raízes, quando não existe nada. Tem a droga comum mesmo. Existem dois caminhos: um é não fazer nada. O outro é fazer mal”, explica.

Se para o tratamento e combate aos sintomas da dengue, o suco de inhame não se mostra tão eficaz quanto promete as receitas disponíveis na internet, a nutricionista esportiva Simone Martineli defende que o consumo do tubérculo pode ser uma opção para quem busca uma alimentação saudável.

"O inhame é uma excelente opção para quem busca uma alimentação balanceada. Isso porque ele é rico em fitoquímicos e antioxidante também. Ele pode proteger nosso organismo contra diversas doenças, principalmente, as crônicas não transmissíveis como o câncer, hipertensão e diabetes. Até na prevenção da menopausa ele pode agir", diz.

Ao G1, Simone Martineli também afirmou que o excesso do carboidrato pode causar o acúmulo de gordura porque o corpo não consegue absorver todos os nutrientes de uma vez.

Além disso, para auxiliar no sistema imunológico, o tubérculo deve ser consumido de forma equilibrada, ou seja, junto com outros alimentos.

"Tudo que é em excesso, até alimentos saudáveis, podem se tornar ruins. O inhame trabalha no sistema imunológico, mas isso a longo prazo. Não adianta a pessoa consumir hoje e achar que amanhã estará bem. Outro ponto é achar que ele é um alimento milagroso. As pessoas precisam ter uma alimentação balanceada. Ele sozinho não vai resolver o problema", afirma.

A médica infectologista da Secretaria de Saúde da Vigilância epidemiológica de São José do Rio Preto, Márcia Wakai Catelan, afirma que a principal medida para evitar a dengue é eliminar os criadouros do mosquito.

"As medidas que devemos tomar são as que já conhecemos: combater os focos de criadouros, fazer mutirões para eliminá-los e usar repelentes. Não há segredo. A população tem que fazer a parte dela" diz.

Se mesmo assim, a pessoa apresentar os sintomas da dengue como febre alta, que pode durar menos de sete dias, acompanhada de dor de cabeça, atrás dos olhos, no corpo e nas articulações, ela deve procurar ajuda médica o mais rápido possível.

"A pessoa passará por exames específicos para receber o diagnóstico. Se for positivo, o médico irá orientá-la quanto as medidas que devem ser tomadas. Basicamente ela precisa ficar em repouso e se hidratar. A hidratação tem um volume adequado diário que vai ser estabelecido conforme o peso do paciente", explica Márcia Wakai.

Ao G1, a médica infectologista também explicou que com a infecção viral causada pela picada do mosquito Aedes aegypti, o número de plaquetas normalmente abaixa, mas que o próprio sistema imunológico age para normalizar a quantidade.

"Com a infecção viral, tem uma diminuição da produção de plaquetas e um aumento do consumo delas. Passada a fase crítica, com a diminuição da replicação viral e com o aumento do sistema imunológico, a plaqueta vai aumentando independentemente do paciente tomar qualquer coisa. No entanto, a hidratação aliada com alimentação é fundamental", afirma.

"O paciente não precisa inventar e tomar um suco de inhame ou mandioca. Ele precisa usar os alimentos comumente consumidos no nosso dia a dia como o suco de limão, de caju e de laranja. Eu acho muito arriscado os pacientes procurarem uma alternativa que não faz parte da nossa rotina como uma forma de tentar aumentar a plaqueta", concluí.

Fonte: G1

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