Documentário alerta para a importância da intuição na relação do homem com o mundo ao redor

08/05/2019 16:38 Mundo
Foto: Reprodução
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Eles ouviam o oceano. E assim se lançaram, dentro de frágeis canoas, pelas águas do Pacífico a fim de descobrir mais terras. Estavam a cerca de 800 anos antes de Cristo, quando ainda se tinha a certeza de que a Terra era plana. Dias e noites depois encontraram e conquistaram outras ilhas, distantes umas das outros centenas de quilômetros, que hoje formam a parte leste da Polinésia, na Oceania. Fizeram as viagens sem instrumentos que lhes ajudassem a navegar.

Nossos antepassados polinésios apenas ouviam o oceano ao desbravá-lo e, assim mesmo, tinham um conhecimento impressionante do sistema. Conheciam as ondas, correntes, nuvens, ventos, estrelas, conseguiam ler o estado do mar e, pelos reflexos nas nuvens, sabiam quando havia uma ilha ao alcance.

Mais de dois mil anos depois - muito mais - hoje nós estamos dirigindo até carro de modo automático, com a tecnologia que fomos conquistando à custa de esforços humanos e outros tantos bens naturais. No entanto, ao mesmo tempo, muitos de nós fomos perdendo um valor intangível, um bem precioso: nossa intuição, nossa capacidade de “ouvir o oceano”. E de estarmos totalmente integrados aos sentidos.

Caminhar por uma rua numa cidade grande apinhada de gente, de carros, ônibus, trens, aviões, vai nos deixando anestesiados dos barulhos que realmente podem nos conectar com a intuição. Para completar, quase sempre estamos acompanhados por um aparelho com tela que nos tira a atenção do olhar e da audição, dois sentidos importantes. Hoje pela manhã, numa rua de Botafogo, fiquei perto/longe de uma mulher que conversava com seu GPS para tentar encontrar o endereço certo para onde precisava ir. Não olhou em volta. Não perguntou a ninguém, não fez nenhum contato com humanos naquela busca.

São reflexões que podem nos levar a algumas perguntas válidas sobre a condição humana. No sábado à tarde, estive mergulhada nesses pensamentos enquanto assistia, em grupo, o documentário islandês “Innsaei – o poder da intuição” ( disponível na internet). Recomendo para quem, como eu, está perplexo com o estado das coisas, as mudanças do clima, o menosprezo das autoridades às notórias circunstâncias que nos levam ao aquecimento global, as questões de saúde precária, de alimentação pouco saudável, de ingestão absurda de agrotóxicos de muita química, da perda de biodiversidade. Enfim. Como começar a mudar, de dentro para fora?

O documentário é contado em primeira pessoa por uma ex-funcionária da ONU, a islandesa Hrund Gunnsteinsdottir, que teve um colapso nervoso por causa do excesso de trabalho que veio junto com a decepção ao perceber que a organização está muito burocrática, com pouca sensibilidade para distinguir os pequenos dramas humanos. Demitiu-se, juntou-se a uma amiga que tinha um projeto para ajudar crianças a fazerem contato com o mundo atual de uma forma mais vinculativa.

“Começamos o projeto, fazendo-nos uma pergunta básica: pensamos com a cabeça, e não com as emoções? Se for assim, como é que isso afeta as nossas vidas?”

As duas amigas iniciaram sua pesquisa no templo do conhecimento moderno, a Universidade de Harvard. Ouviram especialistas que provaram aquilo que elas próprias vinham constatando em suas vidas: o pensamento racional vem tomando conta da humanidade. Mais do que isso: o trabalho vem tomando conta da maior parte do dia de cada um de nós, deixando pouco tempo para a intuição fluir.

“Intuição não é apenas um sentimento fofo. É a percepção de coisas sutis que estão fora do nosso foco de atenção. As coisas que só percebemos subliminarmente e inconscientemente são importantes, fazem parte do que podemos fazer como humanos”, disse o psiquiatra Iain McGilchrist, autor do livro “The Master and his Emissary”, um dos entrevistados no filme.

Na essência, o que se põe em debate é o fato de a visão de cada um de nós ter se tornado uma espécie de ferramenta para julgamento a cada instante. Há um estereótipo formado, uma representação que nos põe, de antemão, preparado para saber tudo... com a razão.

“Nossos preconceitos podem ser perigosos quando tomamos decisões ou julgamos os outros”, alerta Hrund Gunnsteinsdottir. Já a intuição nos leva a um lugar de vínculo com aquilo que experimentamos, que sentimos, nos leva para o campo das emoções. E isto é bem diferente do pensamento lógico.

“A sabedoria foi sendo substituída pelo conhecimento e o conhecimento foi sendo substituído pela informação, pedaços de dados, blocos de dados”, diz ainda o psiquiatra.

O que se passa é que os problemas que enfrentamos hoje não começaram agora, estão aí há muito tempo. E nós repetimos as mesmas soluções. Por isto falhamos. Deixamos que a consciência nos distancie do mundo real, daquilo que acontece a cada instante, para um mundo que fizemos, aquele para o qual estamos preparados. A dificuldade é lidar com o novo, com o inesperado, para criar soluções a cada momento, em vez de sacá-las de um livro de instrução preparado para consertar as coisas.

“Temos um mundo criado, pré-existente, e nos esquecemos dos dados sensoriais”, mostra o documentário.

E como podemos nos conectar, de maneira duradoura, com a nossa intuição? Através da natureza, do meio ambiente. E o que nos bloqueia a conexão é o ruído, a distração, o que chamamos de entretenimento. “O ruído do mundo exterior está emudecendo o som do mundo interno”. Em vez de cortar árvores e matar animais, para que o humano possa se conectar com sua própria natureza seria necessário que ele fizesse tudo de maneira bem diferente. Seria uma volta ao passado? Não. Seria, apenas, usar todo o conhecimento adquirido para pensar outras propostas.

Neste sentido, a vez é das crianças. O documentário mostra um projeto realizado numa escola pública da Islândia que tem ensinado as crianças a função do cérebro. E, sobretudo, como é possível explorá-lo ao máximo, fazendo contato com o silêncio, entre outras coisas. Naquele colégio, a aula começa depois de um minuto de meditação, que as crianças já conseguem fazer sem esforço algum.

Que a civilização ocidental, como um todo, consiga perceber a importância deste olhar para si. Até nisso a natureza, o meio ambiente, consegue ajudar o humano.

Fonte: G1

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