O Banco Mundial e as políticas de educação

Há um caminho fácil para os próximos candidatos elaborarem suas propostas para educação: examinar o que está sendo feito pelos governos e fazer o contrário.
10/03/2018 18:59 Educação
Precisamos atrair alunos com bom nível educacional para a carreira de magistério (Thinkstock/VEJA/VEJA)
Precisamos atrair alunos com bom nível educacional para a carreira de magistério (Thinkstock/VEJA/VEJA)

Um encontro a ser realizado em São Paulo nesta quarta-feira, 28 de fevereiro, deverá debater duas publicações do Banco Mundial pertinentes à educação. Uma delas é o capítulo da Revisão de Gastos Públicos, que trata do financiamento da educação no país. O outro é um documento que revê os desafios e saídas para políticas educacionais pelo mundo afora.

Para o leitor que gosta de saber tudo muito rápido, em síntese é o seguinte: nos dois casos, o Brasil vai na contramão do que o Banco recomenda. E do que as evidências e melhores práticas sugerem.

Na área de gastos públicos, o estudo do Banco confirma o que todos sabem: gastamos muito, em proporção a outros países e gastamos mal. Enquanto não melhorarmos a forma de gastar, não faz sentido aumentar os gastos. O maior gargalo está na quantidade, rigidez e forma de remuneração dos docentes. Um mês após a publicação do Relatório sobre as contas públicas, feito pelo Banco Mundial, o Ministro da Educação determinou um aumento de quase 7% no Piso Salarial – deixando claro que o governo federal tem pressa para levar os municípios e estados ao precipício. Segundo o relatório, dos programas federais de investimento em educação, o único que salva é uma parte do PRONATEC – exatamente a que depende de decisões do setor privado.

Na área de perspectivas, o Banco Mundial apresenta um documento baseado em evidências, e aí o contraste não poderia ser maior. O nó górdio são as políticas relativas a professores – e aí rodamos em todas. O recomendado é atrair alunos com bom nível educacional, recrutar pessoas que dominam bem o conteúdo, treinar em coisas práticas.

No Brasil, recrutamos os alunos com notas mais baixas no ENEM, ensinamos teorias e metodologias ultrapassadas, e oferecemos cursos ministrados por professores universitários que nunca entraram na sala de aula. O recém reformulado programa “Mais Alfabetização” vai na direção diametralmente oposta do que recomendam as evidências. Idem na área de livros e materiais didáticos – se o professor é fraco, os materiais devem ser bem estruturados, dizem as evidências. Exatamente ao contrário das exigências do PNLD – o Plano Nacional do Livro Didático.

No ensino médio, os modelos de êxito oferecem ensino médio técnico de preferência de amplo espectro, em escolas vocacionadas para esse fim – ao contrário da geleia geral promovida pela “reforma do ensino médio”. Também têm mais êxito os países com forte participação do setor privado. Para que serviria o Sistema S, se não for para isso? E por aí vai. Mas há um alerta: não é fácil fazer, é preciso coragem, consistência e competência.

Existe um caminho fácil para os próximos candidatos elaborarem suas propostas para educação – mesmo que não sejam muito afinados com as questões da educação: examinar o que está sendo feito pelos governos e fazer o contrário. Para ter segurança, seria bom consultar as evidências e os que as produzem e as estudam. Há esperança para a educação. Mas a revolução precisa ser profunda. Quem sabe, se a crise piorar, alguém vai colocar o dedo na ferida? O Banco Mundial deu a sua contribuição. E no Brasil, há quem entenda do riscado.

Fonte: João Batista Oliveira / Veja

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