Mato Grosso do Sul

Antônia pediu para que Deus a "levasse" no lugar da filha com covid na UTI

Antônia faleceu na última quarta-feira, mas filha, Fernanda, de 43 anos, se recupera em UTI

Mãe e filha foram contaminadas pelo novo coronavírus. A mãe, de 72 anos, faleceu no último 15 de julho e a filha, de 43, se recupera internada e em leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Ao que parece, as orações de Antônia Benta da Silva serão ouvidas e a filha dela, Fernanda, conseguirá sobreviver à covid-19.

Uma das últimas conversas entre Bruna Aparecida Silva Piaci, 31, e a avó, Antônia Benta, foi essa: o pedido a Deus que ela fosse “levada”, mas a filha não. Isso porque, antes dela ser internada, no dia 10 de julho, a preocupação dela era com Fernanda, que é especial e tem deficiência intelectual.

“No dia anterior (à internação de Antônia) a gente ficou sabendo que ela (tia) foi entubada e minha vó falou: meu Deus , leva a minha vida, mas não leva minha filha”, conta Bruna, em lágrimas pela lembrança.

“E é isso mesmo que está acontecendo. Minha tia está melhorando e minha vó se foi”, chora. Segundo a neta, Fernanda está respondendo agora ao tratamento, iniciado em 8 de julho, dois dias antes da avó também ser internada com covid-19.

 

“Agora que começou sair do coma, mas ela está estável, ainda no respirador, mas falaram que o processo de recuperação é lento. Hoje mesmo ela ficou agitada, mas pediram pra gente ter paciente, que é tudo no tempo dela”, salientou Bruna, sobre o estado da tia.

Antônia, assim como Fernanda, ficou internada no Hospital Regional de Nova Andradina, cidade a 297 Km de Campo Grande. Lá, a idosa era extremamente conhecida, não apenas pelas amizades que tinha, mas porque era ativa, participava dos eventos e até foi eleita Missa Simpatia 3ª Idade.

“Sim, ela foi miss, era jogadora de vôlei do time da cidade, vivia viajando para as competições, fazia dança, hidroginástica, peças de teatro, então assim, era muito conhecida e foi nascida e criada em Nova Andradina”, relata a neta, que acredita que a agressividade da doença é grande, não poupando sua avó, mesmo com histórico tão certo de boa saúde.

Conforme Bruna, a avó tinha hipertensão, mas controlada. No entanto, o avanço da covid-19 em seu organismo desenvolveu problemas no coração e diabetes, que aparecem no boletim oficial da SES (Secretaria de Estado de Saúde), como doenças que complicaram o quadro de saúde de Antônia.

“Todo esse problema desenvolveu com a covid. Minha avó não tinha problema no coração, nem diabetes, nem no rim”, afirma, contando que ao ser internada e entubada no dia 10 de julho, Antônia passou por exames que detectaram arritimia, diabetes e depois, falência dos rins. “Eles iam fazer hemodiálise nela, mas ela passou mal e não resistiu”.

Bruna ainda detalha que a tia, Fernanda, que está internada, está com pneumonia grave, mas desenvolveu problemas que ela também não tinha, como arritmia leve e hipertensão.

Sobre como as duas se contaminaram, a família não sabe exatamente como pode ter ocorrido, mas a suspeita é de que durante uma ida ao centro da cidade, no final de junho, para comprar um presente para a filha, Antônia tenha tido contato com alguém infectado.

“Não consigo entender, porque as duas estão dentro de casa desde o início de março. Eu levei as duas na rua pra minha ó comprar presente pra minha tia, porque elas fazem aniversário um dia depois da outra e acho que foi nessa saída que elas se infectaram”, lamenta.

Bruna, sua irmã e sua mãe ainda não apresentaram nenhum sintoma de covid-19, mas passarão por teste na semana que vem e estão em isolamento.

Memória – Na lembrança, Bruna afirma que o que fica é de uma mulher de muita fé, devota a Deus e que era o esteio da família.

“Ela sempre nos ensinou a ter muita fé, a amar a gente acima de tudo, muita união, a viver a vida. Ela amava viver, amava sorrir, amava a vida dela e é esse exemplo que a gente vai seguir”, ressalta.

De um grande coração, Bruna diz que a avó também era uma pessoas que pensava sempre na família antes de pensar em si mesma e que “tinha uma alegria que contagiava”.

Na despedida, feita rapidamente e com caixão lacrado, não foi possível homenagens, mas segundo a neta, toda a cidade de Nova Andradina homenageou “do seu jeito”, seja com mensagens nas redes sociais, ou por ligações à família. “Eu agradeço pela compaixão das pessoas, pela força que nos dão e vemos assim, o quanto ela era amada”.

Antônia deixa duas filhas, duas netas e cinco bisnetos.

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